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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Eis Um Pequeno Fato: Você Vai Morrer



Em Nome da Honra – parte 1

Pule. Isso, vamos logo.
Já não tinha mais noção do acontecia. O ar rarefeito parecia fechar meus pulmões; o frio gelara meu rosto. Podia sentir a morte entrar pelos meus ouvidos, sussurrando aquelas palavras de incentivo. Sua mão repousava em meu ombro, apoiando. Seria realmente necessário? 
Ande, sabe que precisa. Nascestes destinada a mim. 

No berço já nos são cantadas músicas sobre sermos tirados de nossas mães ou de estarmos abandonadas enquanto criaturas nos cercam ao dormirmos. Se já raciocinascemos, teriamos ideia do que viria dalí a diante. Nada no mundo ao nosso redor tem como base a lealdade ou solidariedade. Comigo não foi diferente, só paguei até meu último minuto o preço de todas as minhas más escolhas.

Não tinha muita conciência do quanto gastava ou do que fazia. Estudava numa faculdade cara, frequentava clubes e restaurantes conceituados e vestia-me a altura do meu modo de vida. Pensava no dinheiro como uma fonte inesgotável. Na verdade, nem sabia com o que meu pai trabalhava, só estava satisfeita com seu salário. Se houvesse ao menos um pouco de interesse de como pagavam meu saldo do cartão de créditos, saberia que não sairiamos bem disso, e agora vejo que a teoria de Maquiavel havia um furo, pois os fins poderiam até justificar os meios, mas o que nos sobra depois disso é irremediável.

Assim que me formei, resolvi traçar o que já havia sido planejado pra mim: assumir a hierarquia Gert. Mas não comecei pelo topo; primeiro, era secretária do meu pai e ajudava-o nas transações finaceiras. Fui ganhando sua confiança e a dos seus sócios. Trabalhava árduamanete, coisa que nunca me imaginei fazendo. Esforçava-me ao máximo para que tudo que pusesse as mãos desse certo. Mudei todos os meus hábitos; já não tinha mais a delicadeza de antes, as horas a fio trancada diante de uma tela me tornaram fria, ainda mais capaz de tudo por dinheiro. Depois de quase dois anos sem promoção, tive a maior de todas: direto para a mesa presencial. Meu pai já não tinha mais condições de comandar algo tão grande.

Meu futuro já estava pré-definido. Mal sabia que ele seria baseado no tráfico. Quando percebi de onde saia os fundos para os investimentos da impresa, já estava mergulhada até o pescoço naquela farsa. Nada que eu fizesse ia me tirar do lugar que me situava: chefe do crime organizado de Miami. O que eu poderia fazer depois disso? Apenas continuar com o serviço. E foi essa minha vida, pelo ao menos até agora.

Durante uma festa beneficente, tudo que havia sido escondido por quase um século estava prestes a vir a tona, e eu precisava intervir. Se caíssemos, o sistema todo viria à baixo. E esse é o motivo de ter feito tudo que fiz: precisava tomar frente aos danos iminentes daquele deslize. Proteger a instituição que manteve minha família por tanto tempo. É meu dever e prazer. Para continuar esse legado, seria capaz de tudo, até mesmo sacrificar minha liberdade. Em honra aos Gert e a todos os que dependiam de mim, respondi a pergunta que para todos parecia retórica: 

_ Sou eu a culpada.

Minutos depois, a única coisa no meu campo de visão eram barras de metal.

 Continua...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Eis um Pequeno Fato: Você vai morrer. #5

 

Distúrbio 
(Parte 2)

Sempre tomei bastante cuidado com os meus atos. Um simples tropeço poderia causar um grande colapso em algum lugar desconhecido. É o chamado “Efeito Borboleta”, ou, como conhecemos na física, lei da ação e reação. Parece que mesmo tendo como precaução meu código de vida, ainda restavam pontos soltos, que eu mesma não notara. Ondas que não pude controlar. Maldito universo.
Depois de ter aberto meu novo presente e percebido que não tinha como eu escapar daquela aberração, resolvi confrontar seus sentimentos. Logo após pegar o livro, perguntei a meu pai quem tinha entregado o pacote.
_ Uma rapaz estranho. Foi ele quem lhe enviou? – Perguntou, tomando-o de minhas mãos, enquanto eu já estava a caminho da porta. - Nem creio que nunca o tenha lido! Verdadeira artista essa Emily Bronte...
Olhei em direção a avenida, mas só pude ver um mendigo, com uma blusa florida, sentado no bar. Voltei e sentei-me na cama, desapontada e ainda tremendo. Limpei os cacos que restaram do estranho globo de neve, enquanto pensava se alguma vez eu havia feito algo extremamente ruim ou estúpido com alguém que poderia estar causando isso, pois só podia se tratar de vingança. Sempre li nos livros que é preciso entrar dentro da cabeça do psicopata para tentar entender as possíveis razões de seus atos. Apesar de achar que nada justificava o inferno que estava passando, fiz uma recapitulação dos meus mais inconsequentes momentos.
Muitos desastres acontecem todos os dias, seja sua família rica, de classe média ou pobre. Comigo não foi diferente. Pais mortos, adotada aos quatro anos, déficit de atenção, problemas de sangue... Mas não se tratava disso. Tratava-se de dias como os que eu deveria estar em casa ao invés de em uma loja de óculos de sol, enquanto meus amigos precisavam de ajuda. Dias como os que meus pais passavam necessidades enquanto eu gastava em hotéis e escolas caras. É... Falhas que nem o mais cauteloso seria capaz de remediar, não sem conhecimento.
A porta abriu e pude ver os olhos negros do meu pai pela fresta. Pôs então a mão para dentro e jogou o livro de volta em minha cama.
_ É, não penso que foi o garoto da entrega, alguém com aquela camisa havaiana não iria ter bom gosto para livros.
Alcancei a janela e vi que não se tratava de um morador de rua naquele bar. Pensei em descer e confrontá-lo ou mesmo chamar a polícia. Mas, com que provas eu o acusaria? Em chamar a polícia, mas com que provas o acusaria? Todos iriam duvidar de minha lucidez, afinal, tudo isso parecia mesmo surreal. Fui a janela para ver se à distancia poderia reconhecê-lo,mas não havia ninguém no bar. Cheguei à soleira da porta e ia chamar por algum dos meus pais, mas ouvi o que temia antes que algo pudesse sair da minha garganta.
O grito de minha mãe ecoou por toda a casa, fazendo com que todos os meus sentidos ficassem paralisados. Desci cada degrau como se fossem feitos do mais frágil material. Fui me esgueirando pelas paredes até ver a última coisa que qualquer pessoa deveria presenciar. Senti minhas entranhas se revirarem, assim como tudo que eu me alimentara naquele dia. Segurei minha boca, tentando produzir o mínimo de ruídos possíveis. Desacordada no chão, minha mãe tinha todo o tronco repleto de sangue. No canto da sala, estava meu pai também desmaiado, mas sem nenhum sinal de violência. Abaixei-me e engatinhei para perto de onde estavam, mas na mesma hora vi uma sombra. Voltei rápido, para ganhar uma vantagem. Sabe em todos os filmes quando o herói está preste a morrer e tudo começa a ir bem devagar? Pois bem, na vida real tudo se move bem rápido. Principalmente seus pensamentos. Ainda abaixada, fui até o escritório e abri a última gaveta da escrivaninha do meu pai. No fundo, uma arma brilhava. Peguei-a, sentindo que com ela nada poderia fazer. Nem puxar o gatilho daquela coisa eu seria capaz. Voltei, na esperança de que, vendo as pessoas que eu mais amava do jeito que estavam, minha adrenalina pudesse me dar uma ajuda. Funcionou. Levantei-me rapidamente, mirando a arma na cabeça do agressor, que estava subindo as escadas, provavelmente procurando por mim.
_ Atrás de alguma coisa, querido? – tentei parecer segura, embora mal conseguisse me manter em pé. No segundo que falei ele se virou, destravou a arma e apontou pro meu rosto. Mas, ver o dele foi o suficiente para mim.
_ Oi Liz. Honestamente, você é mais desesperada do que eu me lembrava. Sites de relacionamento? Depois do que fez, a falta de alguém era o que eu mais esperava pra você.
Acho que a dor me fez anular os acontecimentos da memória. Estava na minha frente a pessoa que realmente tinha direito a me ver agonizar até a morte.
Quando tinha dezoito anos, tinha o mal hábito de fazer a combinação mais estúpida e usada pelos jovens dessa idade: álcool e direção. Pegava o carro sem habilitação, bebia e dirigia pela cidade. Uma noite, depois de muitas horas numa festa, chamei um casal de amigos para irmos na montanha, afim de ver o sol nascer. Para escapar do engarrafamento, fui na contramão. Vinha então um caminhão em alta velocidade, e com o reflexo lento por causa das bebidas, não pude evitar a batida. Quando acordei, estava num hospital, sozinha. Levantei e chamei pela enfermeira. Perguntei onde estavam as outras pessoas que estavam comigo. A enfermeira me olhou com pena.
_ Só deram entrada no hospital você e uma garota, mas o traumatismo craniano e hemorragia não ajudaram e não fomos capazes de fazer nada. Um rapaz colocou vocês na porta, falou que era culpa dele e desapareceu. Não deu para vermos direto, mas assim que melhorar, pode ir na delegacia e fazer um boletim de ocorrência. Consegue se lembrar dele, meu bem ?
Não conseguia, até agora. Zac fixou o olhar e pude sentir sua raiva e tristeza me penetrar.
_ Veja bem, deixei que se livrasse para que você acabasse aqui, nessa maldita cidade, em minhas mãos. Se encontrar com a Rach, diga olá por mim.
Mas antes que acontecesse, meus instintos reagiram. Num chute tirei o seu revólver e atirei. A bala atravessou seu peito e fixou-se na parede. Seu corpo continuou de pé e seus olhos ainda fitavam os meus.
_ Parece que terei que cumprimentá-la pessoalmente.
Desfaleceu então, com um sorriso doentio.
Nunca subestime o que foi destinado a ti por Deus, ou o que está sendo guiado por uma outra força em potencial. Já nasci marcada, direcionada a desventuras; mas você pode evitar. Cuidado aonde pisa, com quem fala e até o que pensa, pois mesmo de um modo indireto, aqui ou ali, você pode causar algo inesperado. Coincidência, meu caro, isso sim é imaginário. 

“ Para os dois desertores que eu mais amo. Saudades...”

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Eis um Pequeno Fato: Você vai morrer. #4


Distúrbio

Ainda que vazio, aquele quarto estava repleto de fantasmas  de um crime que só eu poderia explicar. O chão não havia sido limpo há meses. Baratas rondavam os restos dos meus brownies e isso me assustava; não pelos motivos normais, mas pelo fato de como eu havia mudado desde o último outono. Espantei-as com os pés descalços, feridos pelos fiapos de vidro que ainda estavam por alí. Levantei, mirando meu equilíbrio naquele ponto aberto na parede, onde todos os meus antigos e fúteis medos haviam acabado, gerando os que hoje me consomem.
Durante meses, recebia no escritório flores e chocolates de uma pessoa que se dizia apaixonada por mim. Impressionada com a nobreza de suas palavras nos cartões, comecei a me deixar levar pela idéia de que alguém me amava. Depois de muito tempo de tantos presentes, resolvi pedir ao entregador que levasse agora um meu. Comprei várias trufas e coloquei-as numa cesta, junto com uma nota que dizia: “Não acha que mereço te conhecer pessoalmente?” E logo abaixo pus meu telefone. Com duas semanas sem respostas, pensei ter estragado nossa “relação” com minha atitude.
Numa sexta-feira, exausta e com vontade de tomar um bom banho com sais, despedi do meu amigo Barry, sai do trabalho e peguei o metrô. Chegando, abri a torneira da banheira, voltei para a sala e esperei que enchesse sentada no sofá. Lembrei  que hoje chegava o catálogo de antiguidades que  havia pedido pela internet. Fui para a porta e lá estava, na caixa de correio. Sentei-me de novo e comecei a folheá-lo, na esperança de achar a mesa de boticário que queria. Levantei e fechei a água, antes que transbordasse. Quando voltei a sala, a folha onde tinha a mesa havia sumido; chequei mais duas vezes e cheguei a conclusão de que o stress de tantas horas de trabalho estava me levando a insanidade.
No outro dia, pela manhã, fui ao café próximo à minha casa. Tomei o táxi para o Central Park, a fim de fazer uma caminhada. Quando voltei, o carteiro acabara de pôr mais correspondências na caixa. Cumprimentei e peguei as cartas. Uma era dos meus pais, contando que haviam mudado novamente de casa. Senti saudades da antiga instabilidade que vivia quando morava em Missouri. Todas as outras eram contas, exceto por uma, num envelope rosa claro. Entrei e comecei a abri-lo, enquanto pegava o telefone e ligava para a pizzaria, com o estômago já roncando. Dentro, estava a página com a mesa que eu havia pensado ter sumido do catálogo. Em cima da figura, estavam as palavras “Já nos conhecemos”.
É dispensável dizer que fiquei sem dormir por um bom tempo. Como poderia eu descansar quando um psicopata tinha acesso livre à minha casa? Antecipei minhas férias no trabalho com a desculpa de ajudar meus pais com a mudança. Fui recebida com surpresa por eles, afinal, não os via há quase um ano. Fui para o quarto de hóspedes, bastante cansada pela viagem de ônibus.
_ Filha, está tudo bem com você? – Minha mãe adentrou o quarto, sem bater e me dando um susto enorme.
_ Sim mãe, tudo bem! Eu estava com muitas saudades. – Forcei o sorriso, a fim de esconder minha paranóia.
_ Está um pouco tensa. Aconteceu alguma coisa? Ajudo-te a desfazer as malas, enquanto me conta o que te aflige.
Instinto materno; realmente à prova de falhas. Fui empilhando as roupas sem saber se dizia a verdade, ou apenas descontava no trabalho meu estado de espírito.
_ Tudo bem se não quiser falar, mas não vejo um motivo pra manter algo escondido de mim.
_ Não é isso, não quero esconder nada... – Parei a frase pela metade, ao ver um pequeno embrulho guardado ao lado das minhas roupas, com um laço vinho. – Mãe, foi a senhora que pôs esse presente aqui?
_ Não que eu me lembre, apesar da minha memória estar bem falha ultimamente...
Tirei o laço cuidadosamente, pois o interior do pacote parecia ser bem frágil. Rasguei lentamente o papel, com medo do que eu iria ver depois da fina camada lilás. Reluziu o brilho de um globo de neve, cujo interior havia uma mini cozinha e uma boneca. Virei ele várias vezes pra ver se encontrava o remetente; embaixo tinha escrito: “Não me corresponde mais, tive que procurá-la . Aonde estas?” Virei de novo o globo e percebi que a boneca estava sem cabeça e segurando um telefone. Soltei-o, fazendo um grande ruído. Ele conseguiu entrar de novo depois de todos os cadeados que eu tinha posto? Como? Será que eu o despistei? Quando minha mãe veio em meu amparo, meu pai gritou meu nome do andar de baixo. Desci as escadas rápido, pulando os degraus, aterrorizada. Ele olhou meu rosto e riu:
_ Que isso garota, qual o motivo desse espanto? Só te chamei pra avisar que chegou uma encomenda pra você.
Tomei-a de suas mãos, tremendo. Era um livro, O Morro dos Ventos Uivantes. Abri-o na primeira página : “Não faça de nosso amor uma tragédia. Espero que não fujas mais de mim, me deixou realmente furioso. Última chance, querida.”

Continua ...

Pro meu amigo, motivador, psicólogo particular e karma nas horas vagas. Amo você (:

 Siga: @JoFreire_S

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Eis um Pequeno Fato: Você vai morrer. #3

 

Laços Eternos 


_ Porque ainda vive?
Foi a pergunta que ouvi, deitada naquela cama de hospital. Abri rapidamente meus olhos e vi um rosto fino e pálido bem perto do meu, com os cabelos pretos caindo em cascata sobre a roupa branca, provavelmente roubada da sala dos enfermeiros. Pisquei algumas vezes, para me certificar que não era mais uma das minhas alucinações, causadas pelos remédios que de meia em meia hora me traziam aos montes. Ainda sem entender como a deixaram entrar, esforcei-me para levantar: sem sucesso. Tentei então gritar, só saindo da minha boca uma espécie de grasnido.
_ Não adianta, sou eu quem ficou para a vigília dessa noite. – Com um sorriso de lado, Charlotte completou meu desespero. – Seu quadro permanecia estável, então deixaram que seu noivo fosse descansar. O médico teve uma emergência, então me ofereci para cuidar de você.
Detalhes como a palavra “permanecia” e seu sorriso crescente me fez perceber minha morte iminente. O medo penetrou em minhas veias só de pensar em passar meus últimos minutos com o motivo de eu estar ali.
_ Pensa que pode dar uma de vítima comigo, Violet? Conheço-te mais do que imagina. Sei exatamente o que tentou fazer, mantendo-me afastada desse lugar como se eu fosse a verdadeira culpada dos seus atos sujos.– Despejou Charlotte, sem respirar, transtornada. – Você sempre foi a mais cruel, mas fui eu quem herdou os neurônios do papai.
_ Como... Você... Aqui? - tentei, inutilmente, formular uma frase em meio aquele turbilhão de pensamentos.
_ Realmente pensou que ficaria impune? De início eu queria voltar para contar a todos o que vi aquela tarde, mas assim que consegui uma brecha para sair daquele sanatório, a única coisa que me veio em mente foi te mostrar o estrago que me causou, o monstro que me tornaste.
Tremi ao perceber que ela havia encarnado o personagem que criei. Eu não a via desde que foi para aquela instituição psiquiátrica, agora não me parecendo mais tão bonita e saudável como antes. Seus olhos tinham um fundo de desespero, e sua voz tinha o perfeito tom da loucura, que eu mesma havia causado.
_ Acalme-se, não faça nada que vá se arrepender – balbuciei, certa de que nada que dissesse mudaria meu fim, já que era por mim que ela veio, obstinada a acabar com minha farsa.
Uma gargalhada fez-se ouvir pelo quarto.
_ Não falamos do que não sabemos garota! Já pensou em arrepender-se por eu ter parado naquele lugar? Já se arrependeu por ter matado nosso pai? Faça-me o favor! Existem duas coisas que não me arrependerei nunca: ter te jogado dentro daquela estufa em chamas, junto com ele e essa noite. Vê aquele céu brilhando? São as estrelas comemorando sua ida pro inferno.
Sua mão fria aproximou-se, colocando um pano no meu rosto. Minha visão começou a ficar turva, e não consegui mais ver seu rosto. Senti Charlotte tirando um a um os fios que me levavam o soro.
_ Percebe agora que subestimou minha insanidade? 

"À pessoa mais importante da minha vida".


 Siga: @JoFreire_S


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Eis um Pequeno Fato: Você vai morrer. #2

 
 Sangrando Silêncios
                                            
 Ethan e eu andávamos apressados na rodovia, concorrentes, embora matematicamente paralelos. Contrastávamos como sangue na neve; eu, perfeitamente penteada e vestida, sem uma dobra no suéter; ele, moleton desbotado e um surrado tênis de marca famosa nos pés. Se alguém parasse e me perguntasse as horas, com certeza olharia para o céu e afirmaria que já era noite, embora o sol brilhasse nas folhas secas que nos faziam uma passarela mórbida. Eu tinha o direito de errar, afinal, tudo no meu campo visual parecia ter enegrecido.
_ Espero que pague por isso. É só o que peço a Deus por agora. – Cuspiu Ethan, sem olhar para mim.
_ CALE A BOCA ! FIZ ISSO POR VOCÊ ! – Exasperei-me, segurando seu braço. Ele desvencilhou do meu toque, andando mais rápido. Corriamos juntos contra nós mesmos, enquanto os carros zuniam a nossa volta.
 Arrancou um grampo de meus cabelos, desfazendo a perfeita imagem que eu proporcionava. Torceu-o, enfiando na fechadura da porta, fazendo-a ranger ao abrir. Devorou os degraus, enquanto subia desenfreado para a suíte da minha casa. Na cama, jazia um corpo envolto por um fino lençol de seda.
_ Não posso acreditar nisso... – dizia, enquanto bagunçava ainda mais seus cabelos negros.
 Olhei-o , sinceramente ofendida pelo seu desgosto.
_ Quem não pode sou eu ! Você vivia a dizer para nos livrarmos dela. Porque não aceita?
Ethan me tomou nas mãos e sacudiu meus ombros. Seus olhos estampavam o desespero que eu nunca havia visto naquele rosto que tanto amava.
_ Consegue realmente entender o que está dizendo?  – gritou, como se assim fizesse com que suas palavras entrassem em minha cabeça e se tornassem verdade – Pode ouvir os absurdos que estão saindo da sua boca? Eu queria que fugíssemos, dessemos um tempo de Cambridge, não sei! Como foi possível passarmos tanto tempo conversando sem falarmos a mesma língua?
 Confusa, sentei-me na cadeira. Estávamos ainda falando sobre nós? A meu ver, ele nunca a quis viva. Impossível querer; todos os nossos desejos tinham seu dedo quando fracassavam. Todas as diferenças eram ressaltadas quando estávamos sobre seu preconceito materno. E Deus sabia o quanto eu o amava. Separar-nos não era uma opção, pois eu iria até a barreira do inferno para que não tirassem de minha alma a única coisa que nela restara.
_ Sempre sonhamos com isso querido! Agora não temos mais aqui as amarras de antes, vamos aonde quisermos! – tentei empregar em minha voz a segurança de algumas horas atrás, enquanto convencia minha mãe a beber aqueles supostos comprimidos contra a enxaqueca. Levantei em um pulo, tentando abraça-lo, mas ele esquivou-se como se eu fosse tóxica.
_ Quer saber? É o suficiente para mim. Não posso mais com essa insanidade. Já não aguento mais olhá-la e só conseguir ver toda essa sua loucura interior. Ultimamente, tenho agido perto de você como um médico diante de um paciente: com pura cautela. Isso não é amor. – Caminhou para a porta, e de lá terminou, com a voz cortante. - É medo.
Parada, fiquei ouvindo seus passos e a porta se fechando num estrondo. Não sei se conseguiria me mover. Sentia como se tivessem me dilacerado cada membro, cada lembrança, cada sentimento. De repente, como se chutada, saí daquele limbo em que me encontrava. Tinha na cama a única pessoa que realmente havia me amado o suficiente para não me abandonar, agora tão inerte quanto minha conciência.
Esquivei-me embaixo da cômoda, onde escondida estava a M-16 comprada a anos para nos defender do meu pai. Coloquei-a entre o casaco e o suéter e segui até o final da alameda. Sabia aonde Ethan estaria, tão atordoado quanto eu; no mesmo lugar onde nos escondiamos para que, distantes de tudo, pudessemos nos encontrar. E era lá onde acabaria essa doentia relação, do meu jeito. Não havíamos sido prometidos a eternidade? Como já estava parcialmente morta, só faltava um de nós ...
   “ À mais velha e duradoura amizade, que com sorte terei para sempre”.
 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Eis um Pequeno Fato: Você vai morrer. #1


Chuva de Prata

Mesmo que chovesse, só podia sentir o sangue quente em meus dedos. Enquanto o cano da 38 descansava nos ombros de Neil, eu media os estragos daquela escura tarde de inverno.O brilho do sol oculto pela neblina iluminava o celeiro, sussurrando o quão longe eu havia chegado.
Infelizmente, não conseguia me arrepender. A ira ecoava nas paredes, assim como a súplica de meu pai nas barreiras da minha sanidade.
_ Por favor, nunca te fiz nada! – Clamou o equivocado homem, desesperado por debaixo da mordaça.
 Levantei, pronta para alimentar o que crescia e invadia cada porção de minhas entranhas. Na ponta da mesa, brilhava o bruto alicate, agora vermelho.
_ Como estão suas patas? Vamos ver...
 Segurei-as entre minhas pequenas mãos, aquelas que me tornaram o que sou hoje: uma assassina. A idéia de que isso nos tornava tão semelhantes me causava repulsa, mas ao mesmo tempo, um doentio contentamento, afinal, essa tormenta me assolava ainda depois de dez anos. Apertei levemente o instrumento contra seus dedos, só para testar sua reação; porém, antes que eu pudesse olhar aquela face, seu anel reluziu, fazendo-me lembrar daquele exato instante. Estávamos deitados eu e meu pai no sofá da sala. Ouvia atentamente o desenrolar d’O Mágico de Oz, como se fosse a primeira vez e não a terceira só naquela semana. Com o fim da história, fiz o comentário de sempre:
_ Não entendo o porquê das histórias infantis serem tão tristes. Acho que os escritores não são capazes de produzir mais de duas páginas felizes... Quero ser escritora papai, e os meus contos serão do início ao fim sobre coisas boas, pois é isso que mais tenho pra contar. Ah, e o senhor será sempre o personagem principal.
Meu pai riu, beijou minha testa, orgulhoso, e brincou:
_ Vai ser sim pequena, uma de sucesso, nossa próxima Meg Cabot!
Fez-se ouvir então o estampido da porta aberta bruscamente. Levantamos os dois atordoados.  Na minha inocência, escondi atrás de suas pernas pensando estar  livre do que quer que fosse aquilo.
_ Mas que... ? – Um chute no queixo o calou, fazendo tombar para frente. Em seguida, o tiro veio. Assim, sem explicações nem questionamentos. Ainda consigo ver a cor do resquício de vida sair pela boca do meu pai. Não gritei, não corri, fiquei apenas parada, sentindo o gosto do seu sangue que havia espirrado no meu rosto. Os homens me olharam, riram e disseram:
_ Aí está seu herói, “pequena”.  Vamos deixá-la aqui com ele, aproveitando seus últimos instantes. Voltando, balancei a cabeça com um sorriso crescente em meu rosto. Já estava na hora de acabar. Além do mais, Neil já não tinha tantos membros. Segurei sua cabeça, fazendo seus olhos vidrados encararem os meus. Depois, encostei minha boca em seu ouvido, para ter a certeza de que seria a minha voz a última que ele ouviria:
_ Quer saber? Agradeço-te. Não ter se preocupado em tampar o rosto ou me matar aquela noite me deu um motivo para viver. É isso, vivo por você já faz um tempo. Agora que já sabe, vou lhe retribuir o favor.
Tecnicamente, depois que o coração pára de bater, o cérebro ainda funciona por sete minutos. Troquei minha roupa, me limpei, liguei para a polícia dizendo ouvir gritos, passei as coordenadas e joguei o celular num canto do celeiro. Abaixei-me um pouco, levantei o seu tronco inerte e finalizei:
_ Vou te dar um tempo para pensar sozinho. – disse, já saindo e trancando os portões.
Olhei o relógio e constatei que ainda havia alguns minutos antes da sessão das seis.

"Para minha pequena e nossa mentora".