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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Força do Silêncio XXII



Simples-cidade: Cada um é o que é

Sígnos e silêncios são pares perfeitos para dores do corpo e da alma. Nem ferem pela palavra, nem pecam pelo gesto. Signos e silêncios discursam um mundo dentro do mundo. Queda meu rosto a embriaguez de mais uma noite, por certo, mal dormida. Quedam-se da alma sorrisos que nunca sorrirão com sinceridade, depois da última magia que o espelho reproduziu. Bebo da fonte que não gera vida, entre pérolas, porcos e entrelinhas, a esta altura do tempo, do espaço e das condições com que caminha a menina, irrelevantes, inconsequentes, insuficientes... Sou um pouco do pó com que te adivinhava... Sou um muito de quase nada. Nem soube encontrar um caminho, nem pude me fazer estrada... Meu rosto cravejou-se de pedregulhos traiçoeiros... Meus dedos enrigeceram de dor e, agora, bem pouco atrevo-me a escrever... Eu mal acordo e já sinto sono... Eu mal respiro e já sinto morte. Do outro lado da estrada, a poeira nubla os cabelos encaracolados e loiros de mais uma vizinhança passageira... E nem eu mesmo sei o quanto detesto tantas passagens ligeiras... Eu: frio, insensato, imaturo, vivente, sobre-vivente... Sou apenas um aparente ser humano feliz... Sou apenas mais uma aparência que enche os olhos do outro... Eu sou o outro, sem nem mesmo ser eu mesmo... Ninguém me questiona, muitos me julgam, poucos me ouvem, raros tentam entender, ninguém consegue... Talvez, seja a dor, ou o medo, ou os espinhos, ou o despetalar da flor... Talvez, seja cansaço, sem nunca ter sido suor... Aviões trazem os brilhos distantes de mais um olhar... Ninguém se importa... Está tudo em copos transparentes... Está tudo em cartelas contadas e manuscritas receitas... Está tudo no sono insistente que impede de viver mais o tempo desperto. Soam ruidos de vento e tempestade, soam bobagens, bem poucas poesias, histórias de homens urbanos e de poemas que me foram escritos... Guarda-se o grito... Aprisiona-se o que já se achava prisioneiro, cai-se de altas construções, produz-se sonhos em fábricas de iludir... A fome de cada marca é criada na sincronia com que as necessidades são condicionadas pelos meios de comunicação.

(De um dia, mês ou ano para outro... Nem sei ao certo).

Nós não sobrevivemos, talvez, nem sequer existamos. Não é mais uma teoria de conspiração. São pensamentos confusos mesmo. É mais uma soma de todos os ítens que se distribuem por papéis e paredes. Pois é, não faz sentido, né? Mas, você nem sabe que sentido isso tudo faz. Todos têm pressa, as ruas estão apinhadas de carros, o calor que inspira litoral e bronze nunca chega, as bebidas são consumidas e consomem. Que liberdade é esta que nos aprisiona na confusão de dias aturdidos? Que liberdade é essa que nos faz condenados a grades e prisões que nós mesmos erguemos? Que liberdade é essa? Perdi a conta do tempo que faz que não assisto TV com a devida atenção. Perdi a conta do tempo que faz que eu deixei de acreditar que existem relações sociais completamente dissociadas de interesses, sejam eles políticos, sejam eles quais forem. Perdi a conta do tempo que faz que eu já não me convenço mais de quase nada. Tudo tão bem encenado que parece real. As politicagens, as políticas, as amizades, os interesses, os sorrisos, as palavras. Tudo tão cartesiano e ao mesmo tempo tão carregado de capitalismo, egoismo e outros tantos 'ismos' a que já estamos acostumados. Faz tempo que as palavras 'respeito', 'verdade', 'obrigado' se perderam ou foram substituídas por outras bem menos verdadeiras, bem menos valorosas. Eu olho para os livros e as páginas em branco que se acumulam ao meu redor. Vejo as roupas, perfumes, tênis e ideias que se espalham pelo guarda-roupa, pela escrivaninha, pela cama... Meus pés descalços denunciam a verdadeira liberdade. Eu durmo quando amanhece. Acordo quando o dia já está no meio. Eu leio, escrevo, canto, vivo. Sento na varanda e ouço os pássaros. Nem sempre eles me irritam tanto quanto já me irritaram. Experimento novos sabores de chá e ouço o 'novo'. O violão tem dado conta do que o sono não dá. Mas, a paz me visita como um estranho que retorna ao ninho sem nunca ter estado nele. Não há mais unhas negras. O que era preto e branco tem cores. Ainda tenho intolerância à mentira e amo poesia, ainda odeio a obsolescência programada e amo meus livros e canções escondidas, ainda odeio chamadas ao celular e amo dragões, odeio webcans e amo paredes brancas. Mas, algo maior está no silêncio e em mim. Nos fones de ouvido, estranhas combinações de Joy Division, SOAD, Alice in Chains, Rammstein e Evanescence trilham minhas corridas. No asfalto cinzento as pessoas cruzam umas com as outras sem cumprimento algum, elas já se olham sem se ver, mas julgam em pensamento a roupa e os passos de quem passa. Tudo bem... Cada um é o que é. E se isso serve de alguma coisa: eu sempre sobrevivo. Sei quem sou e onde estou. A bem da verdade, a noite, o silêncio, este monte de músicas confusas que embalam meus estágios de eterna transformação, as palavras confusas ou não, a aparente melancolia... Eles me tornam melhor. No silêncio de mais uma centena de páginas eu me calo, mas não adormeço. Não posso mudar o mundo inteiro, mas se puder transformar um mundo sequer, se eu puder pelo menos tentar fazer a minha parte, se eu puder dar testemunho de minhas palavras e de minhas ideias... Se eu puder, ao menos, fazer uma dessas coisas... Então, a vida, ainda que breve venha a ser, terá feito sentido. Penduro os meus sonhos num cabide quando o dia é claro e só os visto em dias nublados ou noites frias. É assim que gosto de sonhar. Não preciso provar meus sonhos a ninguém. Eles só têm significado sendo meus. Eu silencio, mas o novo sempre vem e descortina todas as palavras que não foram ditas.



Leia Mais: Cidade Solidão

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A Força Do Silêncio XXI


         2. Azuis...

          3. De Longe... 
 
           4. O Passageiro


         6. O Frio...

         7. Silêncio

        8. A Sombra...

        9. Trégua

         10. Eduardo

         11. Aprendendo...

          12. Tarde de Escola...

             13. O Outro é um pouco de Nós



         16. Controle Remoto

          17. Cada Vez Mais

         18. Margens de Vida

                        19. Os Verdadeiros Heróis 

          20. Duas Vias...


 Retornamos com as postagens no dia 16/01, com textos inéditos escritos por Darla Medeiros.


Leia Mais: Cidade Solidão

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Força Do Silêncio XX

 

Duas Vias...

Não me condene na primeira linha só porque eu já afirmo de cara que Hitler foi um herói... Não me julgue em tendência partidária se eu resmungar temerosa que Lula é um herói... Atire a primeira pedra quem nunca teve os seus... Não os seus folhetins baratos com cara de comercial de margarina e finais felizes que só mudam de endereço... Atire a primeira pedra quem nunca teve os seus heróis... O ponto de vista varia de acordo com a vista de cada ponto... Uma corrente com fins benígnos pode traçar caminhos escusos... Não... Eu não estou defendendo o nazismo... Não, por favor, eu também não sou petista , nem qualquer outra coisa que remeta a qualquer partido político... Por desencargo de consciência ou por puro prazer de des-venda-r lá vou eu... Alguém aí, por acaso, já se colocou no lugar do povo alemão que sobre-viveu à Primeira Guerra Mundial? Alguém aí, já parou pra pensar que eles foram responsabilizados e pagaram, literalmente, com juros e correções monetárias por uma guerra que não fizeram sozinhos... Alguém aí tem ascendência alemã? Pois é... Você não acha mesmo que os alemães e italianos vieram para o Brasil porque tinham uma vida de esplendor em suas terras natais, né? Vamos lá, meu povo... As pedras ainda estão na mão? Aprendi na escola que Hitler era um monstro que matava judeus, mas não me disseram o quanto os alemães que o seguiram haviam sido humilhados, pisoteados, sofridos... Então, você mira o meu rosto e levanta a mão com a pedra em riste, mas acalme-se... Ainda não é hora... Você me pergunta qual a relação do Lula com essa história e eu lhe respondo. "A ocasião faz o ladrão". Pronto! Agora você esta furioso... Acertei? Vai dizer que estou chamando Lula de ladrão ou o próprio Hitler... Ou comparando Lula com Hitler... Não é nada disso... Quando a minha avó citava essa sabedoria popular queria dizer que dependendo do que as circunstâncias oferecem é que as coisas e as pessoas são moldadas e moldam o mundo... E, verdade, seja dita, isso tem toda relação com nossos heróis Hitler e Lula e, quem sabe, até o próprio Super Homem. Não, meus caros... Eu não estou ficando louca... Para os alemães derrotados na guerra e responsabilizados por ela que viveram para ver seu país destruído e seu orgulho pisoteado, o discurso forte de um homem que prometia vingar suas dores era um ato heróico, as armas levantadas por esse homem em favor disto, também... Não estou dizendo que Hitler merecia o Nobel da Paz... Vejam bem... Estou apenas afirmando que naquele contexto, para aquela população, por estes motivos e muitos outros, de acordo com este ponto de vista, ele representava uma figura heróica que veio para libertar... E Lula? - Você me pergunta... Caro leitor... Analise com carinho a história do Brasil e diga quantas vezes um membro do ' povão', como costumamos designar, chegou a ocupar tal cargo, com tal representação... Pense mais um pouco e pergunte-se: quantos outros presidentes tiveram uma repesentação internacional similar ao do ex-presidente Lula? Esqueça a questão do mártir que envolve os últimos acontecimentos da vida do petista. Pense apenas no cerne do que foi a sua Presidência... Um homem sem ensino superior, com seus equívocos lingüíticos, seus fantasmas sindicais e suas vidas múltiplas em período de ditadura... Perceba que eu não defendo a condição de herói de nenhum dos dois, apenas observo em que contexto poderia uma maioria enxergá-los como defensores ou o que chamamos de heróis... Não justifico aqui, nenhum dos atos de qualquer que seja a personagem. Apenas ofereço um outro ponto de vista, meus caros... O mais triste é que tenho quase certeza de que muitos já enxergaram o Lula "herói", mas tenho certeza, que poucos enxergaram o lado herói que Hitler poderia representar. Quando a Grande Depressão configurou suas marcas profundas na vida econômica e social do início do século XX, a figura do Super Homem teve um papel quase de auto-ajuda... Agora, ao invés de querer arremessar pedras, você provavelmente está gargalhando... Confesse... Mas, não é nada do que parece... Ao homem sem perspectiva de vida de uma década falida, que não trabalhava nem pra pagar a conta de energia elétrica, a ideia daquele homem, nem tão humano, que resolvia quase todos os problemas e enfrentava monstros de poderes inimagináveis estimulava a não desistir... E temos, então, um placar final... Hitler, Lula, Super Homem... Três "heróis" diferentes dentre tantos que em algum momento, por algum motivo simbolizaram a luta de um povo de algum lugar delimitado e, acima de tudo, foram responsáveis por fortalecer orgulhos fossem eles nacionalistas e coletivos, ou ao menos individuais... Coisa que falta é a gente olhar para o lado e pensar nos heróis que se criam hoje... O que é que a gente anda consumindo mesmo? Em quem a gente deposita a confiança? De quem a gente espera proteção? Não me recriminem por citar Hitler, nem Lula, nem o Super Homem... Todos heróis, em alguma parte da história... Todos transformados, perdidos e encontrados... Mas há que se observar... A história sempre terá duas vias... Mesmo quando os livros disserem que não, mesmo quando os anti-heróis tentarem desfigurar as cenas... Sempre haverá mais de um contexto, sempre haverá mas de um lado na guerra, sempre haverão heróis diferentes, em momentos diferentes, para olhos diferentes... E é assim que é... Em duas vias o mesto ponto de partida pode representar a chegada tardia, o atropelo dos gestos e a face desfigurada que transforma o herói em vilão na primeira sombra que representa a noite...

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terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Força do Silêncio XIX

 

Os Verdadeiros Heróis

Eu sou daquela época 'bonita' em que a criança chegava na escola e aprendia a decorar datas e heróis. Sou daquele tempo 'bonito' em que a decoreba era método de ensino. Sou daquela época em que as pessoas sabiam o porquê de um feriado existir. Não que o professor, o pai, a televisão ensinassem o que é República... Não, claro que não... Seria pedir demais... Não é mesmo? Mas, não é este o motivo desta textualização. É tudo tão confortável e tão despreocupante em fevereiros e feriados, que o mundo esquece de lembrar do que realmente precisa ser lembrado. Tantos homens e mulheres construíram a História e ocupam seus bastidores, que até chega a ser omissão não citá-los. Não citar o pedreiro que construiu o prédio que abrigou o Presidente... Não citar o soldado que perdeu a vida e deixou órfãos seus filhos em nome de um ideal... Não citar as mulheres que foram deixadas em prol da libertação de um país ou da defesa de uma ideologia... Não é justo... Não é justo não citar aqueles que construiram a capital e foram colocados à margem dela... Não é justo não citar os que carregaram pedra nas costas, literalmente, para que as grandes pirâmides se tornassem símbolos de uma civilização... Não é justo não citar as costureiras que compuseram os uniformes dos soldados, os vestidos das princesas, as bandeiras de uma nação... Os verdadeiros tijolos que construíram a humanidade não são feitos de Deodoros da Fonseca... Não nos enganemos... Não nos enganemos aceitando os heróis criados e esquecendo os reais executores da História... Não nos prendamos a datas... Não nos prendamos a nomes... Atenhamos nossas atenções às atitudes... Atitudes de homens e mulheres que nunca tiveram seus nomes e seus méritos registrados em livros... Atenhamos a nossa atenção aos que fizeram do mundo o que ele é hoje... Imperfeito, por certo, é possível que o percebamos... Mas, o espaço em que desenvolvemos uma vida social é fruto de relações complexas do homem para com o meio. Na base do mundo complexo, na base da vida em profunda e contínua transformação, na base do que você é hoje; estiveram inúmeras pessoas... A necessidade de criar heróis com que a população pudesse identificar seus sonhos criou e propagandeou esta montoeira de nomes e datas que você consome... Não sejamos tolos, caro leitor... Para representar uma massa de executores um único indivíduo levava a fama... Curioso... Parece que isso ainda não mudou, né? Todo mundo vive em torno do propagandeado, mas pouca gente diz "bom dia" para o gari que mantém as ruas limpas e frequentáveis... Todo mundo aperta a mão do dono da casa de shows, mas poucos agradecem ao garçom... Todo mundo cumprimenta o desempenho do estilista e a beleza da modelo, a maioria esquece dos faxineiros, dos que servem cafezinho, dos que atendem na bilheteria... Todo mundo cumprimenta o proprietário pelo requinte da casa construída e o engenheiro pelo belo desenho da obra, poucos apertam a mão calejada do pedreiro e o parabenizam pela competência da execução... 'Triste fim de Policarpo Quaresma'... O mundo é assim... Cadê o herói que estava aqui? Disfarçado de Tiradentes, vestido de Presidente. tirando sarro com o dinheiro público? Cadê o herói que estava aqui? Matando indígenas e transformando-se em estátua de praça pública? Cadê o herói que virou miniatura vendida em cidade turística pelos filhos de quem realmente construiu a História e vive à margem dela? Se não for pedir demais da próxima vez que você encontrar aquele monumento famoso enfeitando a sua cidade e estampando as páginas do livro de História do seu filho, pare pra questionar o que há de verdade por trás destas imagens e o que é uma criação do homem para corromper o meio... Verdades distorcidas dobram as esquinas todos os dias, disfarçadas de vida, disfarçadas de História, disfarçadas de herói... Verdades distorcidas são repetidas tantas e tantas vezes que você chega a reafirmá-las... Datas marcadas, cartas marcadas, números cartesianos ou não tomando a sua vida, determinando seus espaços, suas folgas, suas crenças, seus questionamentos... Quem é você ou o que é você? Quais são os grilhões que te forjam? Se República é coisa pública, por que são sempre os mesmos gatos pingados que dela se beneficiam? Se o feriado é pra ser comemorado cadê a explicitação do que deveria ser uma República? Quando foi que tivemos uma República que saisse do conceito e da zona de conforto e fosse realmente uma palavra traduzida e vivida enquanto sistema? Abra os olhos... A venda negra já não combina com as cores patrióticas da bandeira de brasões portugueses que você ostenta em ano de Copa do Mundo com tanto orgulho. O mundo é uma caixinha de surpresas, onde as mãos que fazem o milagre não são as que recebem o louro do reconhecimento. Façamos o que por nós seja possível... Façamos mais do que aceitar... Mais do que cruzar os braços... Questionemos, pensemos... Habitemos um espaço que reconheça o papel determinante de cada ser dentro de uma sociedade, dentro de um sistema, dentro de uma História...



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terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Força do Silêncio XVIII


Margens de Vida

Nas grandes capitais um emaranhado de confusos enfileiramentos em comum. Em plena Florianópolis, ruas estreitas, ruas tortuosas, carros enfileirados, vidas encaixotadas... Em plena Ilha, onde há tantas pessoas convivendo com as outras, aquela premissa de 'nenhum homem é uma ilha', cai por terra. Todos se trancam em seus caixotes de metal, em suas caixas de cimento... Todos se escondem atrás de suas vidraças: algumas coloridas, algumas escuras, algumas para ver melhor, outras apenas para embelezar a moldura do rosto... Todas, sem exceção, camuflando o olhar ou protegendo-o do Outro. Estamos tão certos de nossa condição de superioridade, ou pensamos em estar, que não é muito cômodo olhar para a margem, ou o que a gente supõe que ela seja... Sempre estamos tão seguros de nossos acordos televisivos, de nossas vidas em falsas propagandas de margarina, que esquecemos das margens. Todas as páginas tem margens. Só na vida corrida que o homem leva, elas são tão poucos prezadas... Na página, margens são um delimitar, um arranjar melhor as letras no espaço, um cuidar para que não se fira as molduras da escrita. Mas, na vida... Nem sempre vivida... Margem, fica à margem, fica à parte, fica em um canto qualquer da existência... A margem é marginal no contexto de cidade... Não como a Marginal Tietê que é via, rodovia... Nada disso... Marginal, como gente que vira bicho, ou que é tratada como se fosse... A miséria humana, nas grandes cidades não pede passagem, ela simplesmente vive, ou sobre-vive... A gente vê 'bichos' por todas as margens da cidade e nem sempre eles estão na periferia... A gente vê margens no centro das cidades... Não as margens que embelezam e delimitam os textos das ciências humanas ou literárias, mas a margem dos marginais... Pessoas, como eu e você, maltratadas pela vida, agredidas pela própria história... Talvez, estejam ali por opção, uma opção nem sempre deles... Talvez, a opção também tenha sido sua, quando passou do outro lado da calçada por 'medo' de aproximar-se daquele maltrapillho sentado no gramado. É, eu sei... Sei que a gente cresce na sociedade do medo, que a gente tem mania de julgar os livros pela capa, sei que a gente sente e isso não é mensurável e, por vezes, nem compreensível. Devíamos brincar de 'Sentindo na Pele'. Uma vez na vida, cada homem deveria ser colocado no lugar da pessoa que ele mais critica ou que ele mais teme, pelo menos para sentir o que é estar no lugar do outro. Outros somos todos para alguém, Outros muitos haverão para a gente. Pessoas comuns com qualidades variáveis, defeitos, discursos, dificuldades, misérias... E como é difícil perceber as próprias misérias, as próprias margens de uma vida nossa... Como é difícil... Porque misérias humanas nem sempre estão nas margens de uma cidade, vestidas de pobreza e abandono... Misérias humanas, por vezes gritam nas mesas de homens finos e bem formados, dotados de muitas facilidades que a outros não foram dadas. Eles estudam muito e falam bonito, mas pouco lhes importam as margens. As margens da história de um homem confundem-se com as margens da história de uma sociedade inteira. Um é construído em detrimento do outro. Margens e misérias são condições inerentes ao ser humano, a sua manifestação é que está condicionada ao meio social. Teorias e práticas desencontram-se na estrada do tempo e no espaço da cidade. Por fora tudo parece ensaiar a mesma coreografia, por dentro estão todos perdidos nos emaranhados de ruas de uma capital. Por fora todos parecem fazer parte de grupos infindos e sentir-se bem dentro deles. Por fora os vidros do carro se fecham quando o homem de roupas esfarrapadas se aproxima. Por fora estão todos erguendo seus muros físicos, trancando-se em carros, escondendo-se atrás de óculos escuros, trancando-se em seus apartamentos, escondendo-se atrás de informatização e esquecendo do contato humano e  real, que nada disso pode suplantar. Por dentro e por fora, tudo é miséria, margem e marginal... Mas, está muito difícil, em dias contemporâneos, abrir as janelas para perceber que o defeito, muito antes de estar no lençol sujo do varal vizinho, está na vidraça empoeirada de sua janela.


O Bicho

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem”.

(Manuel Bandeira)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Força do Silêncio XVII


Cada Vez Mais

"Levamos uma vida que não nos leva a nada.  
Levamos muito tempo pra  descobrir. 
Que não é por aí... não é por nada não. 
Não, não pode ser... é claro que não é... 
Será?"
Mecanicamente, as filas do mundo acumulam homens e mulheres que esperam por um algo mais. O alvo é sempre uma figura minúscula, difícil de atingir que se movimenta pelo horizonte. O ser humano dá um passo a frente, o horizonte muda, o alvo foge, foge para longe... Nós somos o que ainda não somos. O sonho de um futuro é um por vir... A felicidade nunca está completa... Responde-se a uma questão, outras tantas são projetadas... Somos os eternos insatisfeitos... Os olhos que projetam o risco no outro, a perceber que as lentes que observam é que estão embaçadas... Diz um velho professor a quem não recordo mais o nome: "O ser humano é bom", a sociedade é que o condiciona. Dizia Hobbes em letra de rock'n roll contemporâneo: "O homem é o lobo do homem". Diz o sábio em seu livro, suas linhas, suas redes sociais: "É a civilização-coisa". Querer ter para ser é confessar que não se é coisa alguma, além de um ser vazio revestido de um mundo de coisas. Havia estrelas em muitos céus, mas o céu da boca era tão fácil de alcançar que ninguém percebeu que estava lá.  "Cada vez mais" era a expressão que a minha criança repetia em sua produção textual ao falar de violência. Como seríamos melhores se ao mencionar a violência pudéssemos repetir com constância "cada vez menos". Menos individualidade, menos agressividade, menos crianças armadas e mal amadas. Se "cada vez mais" falasse de respeito, educação e tantos outros adendos necessários a uma boa formação de caráter, então, sim, seria bem-vindo. Mas, depois que inventaram a desculpa e as prisões, é mais fácil corrigir do que ensinar... Para investir em ignorantização os "donos do poder" da "terra de gigantes" e os "senhores da guerra" de tantas outras espacialidades, quase que provincianas, não medem recursos, esforços, ações. Todos ligam a mesma TV e assistem as mesmas tragédias, todos consomem as mesmas dores, partilham os mesmos horrores, vendem as mesmas marcas... Todos ou quase todos propagandeiam um mundo capitalista em palavras, vestimentas, olhares e necessidades nem sempre tão necessárias... Perderam-se as essências... O que é realmente necessário? O que é essencial? O que lhe faz viver? Um pouco de silêncio e um copo de água pura?  Faz tempo que o homem nasce limpo e que com o tempo aprende as melindrosas faces de SER humano... Faz tempo e eu nem sei quanto tempo faz, que a gente ensina as crianças a serem adultos cedo demais... Faz tempo que as crianças querem crescer e deixam-se tentar cedo demais... Faz tempo que o mundo que conhecemos caminha em estradas perigosas, na linha tênue entre um fim e uma redenção... Faz tempo e, talvez, nem faça tanto tempo assim, que não se erguiam tantas armas... Mas, também faz tempo que os homens guerreiam entre si por poucas léguas e motivos que se potencializam sem ter razão para o ser... Há muito tempo, perseguidos e perseguidores, dominantes e dominados, proprietários e propriedades, há muito tempo estrelas cadentes contrastando com satélites... E nada é por acaso. O homem que empunha arma é o mesmo que fala de d-EU-s e é o mesmo que prega a palavra. O homem que veste a batina ainda não é muito mais que um homem. A televisão que sempre vende tantos produtos eficientes travestidos de boas ideias toma as rédeas sociais, a mídia que a acompanha faz seus jogos... Os donos do poder aplaudem de seus camarotes, bem acima de onde o povo anda empilhado nos ônibus, respira a fumaça urbana e cinzenta de uma grande cidade. E como nada pode ser dissociado do todo sem que para isso perca o significado, fica sempre um discurso subentendido nas entrelinhas... Entrelinhas de um discursos, propagandas, linhas de qualquer natureza, formas de respirar, desabafos... Tudo que a mídia leva ao público trás consigo um algo a mais, uma venda para os olhos que consomem, um cabnresto para os olhos dos que assistem, um código para não poderem ser poliglotas na arte retórica do convencimento... Estamos todos enfileirados e a caminhada é evidente, o destino quase certo... Se você for o próximo qual a chance de fazer algo diferente? Estamos tentando... É a parte que nos cabe, é a parte que sempre nos coube... Nas salas de aulas absorvendo pó de giz pulmão adentro... Nas estradas da vida chorando escondido com as misérias humanas travestidas de histórias infanto-juvenis.. Estamos tentando... Talvez, não sejamos tantos... Talvez, nem mesmo possamos fazer a diferença para o mundo, mas o faremos para alguém... O horizonte é uma linha distante que se afasta sempre que damos um passoa frente... O alvo consegue se mover e ir para mais longe... A felicidade é uma busca constante, mas cada sorriso, por mais que pareça sombra, no rosto de qualquer anjo já fará uma parte do paraíso parecer mais real... 



Agora não mais importa o que fizeram de ti .E sim, o que tu vais fazer com o que fizeram de ti...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A Força do Silêncio XVI




Controle remoto

“O homem é o lobo do homem”. (Thomas Hobbes)

‘Ta lá mais um corpo estendido no chão’. O motivo pode ser uma bala de qualquer calibre, um atropelamento, uma confusão... Uma confusão qualquer? Um calibre qualquer? Ah...Qual é o seu problema? Tem gente morrendo por causa disso!!! Mas, é mais fácil... É bem mais fácil mudar de canal e não ver o mundo acabando todos os dias para alguns milhares... Vai lá! Troque o canal rapidinho, pra não perceber que o programado de verdade é você. Parece feita, perdida em letra de música, mas é muito mais que isso... É vida assistida na esquina. O corpo estendido no chão... As pessoas correm... A ideologia bonita que prega a fraternidade, diria que elas correm pra socorrer, que elas se apiedam... Mas, é lamentável... Não é nada disso... As pessoas correm para assistir o espetáculo de horrores, as lágrimas, os medos, as faces e os metais retorcidos... Ninguém se atreve a estender a mão... (Olha a ideologia bonita aí de novo). A notícia trágica é mel em lábios e ouvidos sagazes, sensacionaliza a perda, potencializa a propaganda... Eu diria até que o infeliz expectador de atropelamento sai, na maioria das vezes, com o ego massageado por ter testemunhado a ocorrência, por ter vendido a melhor fotografia... Pobres abutres, caçando a desgraça em troca de alguns tostões... Você não precisa concordar comigo, basta perceber que faz algum sentido... Um conjunto de curiosos sempre emenda-se em expectativa quando a tragédia acontece no meio da rua. Já quando ela vira manchete repetida nos jornalísticos de todos os canais, a pecinha do comodismo cai como uma luva: controle remoto nele... E as tragédias, por mais reais que possam ser, passam a parecer fantasias repetidas... A tela que não é tão mágica, pede audiência às custas da dor alheia... Mas ninguém sente mais nada... Porque entre as abordagens dos mundos que sucumbem todos os dias, sempre há uma celebridade, um jingle, um produto pra distrair a atenção e o bolso do cidadão... E sempre haverão os tributos, e os aniversários de morte, e os depoimentos das vítimas, e as falsas imagens heróicas, e os malvados vilões... A peça é toda tão previsível, mas poucos percebem quando ela se ensaia. Controle remoto... Eu bem queria ter um. De preferência um daqueles com jeito de “click” em que as pessoas pudessem controlar a velocidade das coisas, circunstâncias, sentidos... Mas, quer saber? Isso não teria a menor graça... Desaprendi a utilizar controle remoto, quando descobri que ele é que me controlava e mantinha-me em remota ação... E faz tanto tempo que nem lembro mais. Naquela época a gente ainda brincava com bonecas e carrinhos de plástico quando tinha 12 anos... Naquela época a gente ainda achava que os sonhos iam se realizar sozinhos... Naquela época eu ainda acreditava que o meio corrompia as pessoas e , descobrir, que as pessoas é que corrompiam o meio foi algo frustrante... As janelas e cortinas detonadas de uma escola pública denunciam que os tempos mudaram, que os grilhões que nos forjavam mudaram de face... “Ta lá mais um corpo estendido no chão”. Mesmo assim as pessoas seguem seu ritmo apressado e egoísta... Ninguém tem tempo... Ninguém se importa... Se o quintal ainda floresce para o seu lado do muro, tudo está em paz... A massa se agita! Os ídolos se transformam, a natureza o homem ainda tem cara de tempos absolutistas. “O homem é o lobo do homem”. O homem é seu próprio predador. As armas são outras, mas o desafio é o mesmo. Os homens competem pra saber quem sabe mais, competem porque querer ser melhores que os outros...Eles não têm tempo para tragédias alheias. Eles não têm tempo nem para si mesmos, mas continuam fingindo que se importam e mudando de canal, sempre que a desgraça sôa entediante demais para ser assistida. As verdades criadas e consumidas... As verdades assistidas não são boas ou ruins o suficiente para manter a atenção. Então, A gente muda de canal pra não ter que mudar de idéia, de opinião, de valores. Muda de canal pra não fazer a verdadeira revolução: transformar-se para transformar o mundo a sua volta. Ou pelo menos, tentar.




segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Força do Silêncio XV



O Canto dos Poetas Malditos...

“Âncora... Vela... Qual me leva? Qual me prende?”

O canto dos poetas malditos faz a pergunta. Quem responde? Quem se esconde da pergunta? Quem se omite de uma resposta? Somos capazes de reconhecer âncoras e velas? Penso mesmo que de forma progressiva sorte e acaso se confundem... Cadê a verdade que estava aqui? Verdade!? Qual é a máscara que te veste? A verdade é um ponto de vista. Não pode ser absoluta e abrangente da forma como sonhamos que fosse ou pudesse ser... E o respeito?! Cadê o respeito que nunca esteve aqui? Como podem ter incorporado a palavra quando aprenderam tão pouco sobre a sua prática? Os ditos populares se revestem dos sonhos mais grotescos e as filosofias refletem o óbvio. Mas, se é tão óbvio o que se reflete, por que a maioria não vê? Ah... A necessidade humana de arrebentar o dedão do pé numa pedra, pra perceber através do tato o que os olhos poderiam ter visto... Pedras... Pedradas... Pedregulhos... Formatos tão parecidos com significados tão diferentes... Misérias humanas no bar da esquina: assistem TV, usam as mesmas camisas dos mesmos tipos e times, consomem as mesmas bebidas... A vida na esquina é uma conotação de mundo... Qual a circunstância que proporciona a evolução? Por que o homem regride? ID-entidade!? Quem tem a sua? Quem vende por três listras paralelas de um marca famosa? Hippie-ISMO... Quantos “ismos” a gente cria pra provar que os achismos são um pouco mais que isso? Os moinhos de vento ainda seriam apenas isso, se o homem não os transformasse em gigantes... A imaginação humana é uma caixinha de surpresas? A falta de imaginação pode ser pior... Falando nisso... Cadê a vontade de viver que estava aqui? Deve ter se perdido em alguma indústria farmacêutica qualquer, no roll de cobaias vivendo no modo automático. Profusão de sentimentalidades bitoladas pelos ANTI-depressivos podantes do SER humano. O canto dos poetas malditos reza que “toda vez que falta luz, o invisível nos salta aos olhos”... Difícil, no entanto, tentar perceber o visível em luz que nem sempre é adequada... VARIA-a-ação da luz, varia a visibilidade... A alegoria de Matrix tem muita cara de mordida na maçã... Enxergar tudo o que estava ali o tempo todo, mas a ilusão suplantou a realidade... Desculpem o repeteco, mas a realidade é um maldito ponto de vista e, por isso, ela nunca é totalmente real. É, eu sei, totalidade é uma palavra grande demais para encaixar aqui... Mas nem com lente de aumento a entrelinha é perceptível para alguns... O formato cartesiano torna o todo previsível e entediante... Ah, por favor, alguém me socorra... Cadê o mundo surpreendente que estava aqui? Será que ele nunca existiu? Acho que a gente é que enxerga de menos. Falta coragem para erguer as mãos em uma manhã qualquer, desempoeirar a vidraça e perceber que “não há nada de novo no ovo da serpente” e nada de tão sujo assim no quintal do vizinho... A gente enxerga demais? A gente enxerga de menos? Ou nem quer mais enxergar? È mais fácil ligar a TV e se imaginar em um comercial de margarina... Sonhar em ficar irresistível com aquele sapato colorido e fluorescente da nova coleção primavera-verão de qualquer modismo. Sonhar em usar produtos e ter mulheres caindo aos seus pés... E olha os “ismos” por aqui de novo... E, eu insisto, persisto, resisto...

“Âncora...Vela... Qual me leva? Qual me prende?”

Quando o noticiário sensacionaliza os engavetamentos de uma capital, ele só o faz, porque atende aos que adoram a tragédia... O caos? Não sejamos tolos!?! Há uma certa ordem no caos!?! O caos é uma instância maior... Não ousemos chamar às nossas misérias de SER humano de CAOS... Tem gente demais no mundo e espaço útil de menos... Tem ação demais para atitude de menos... Tanta ordem em quadratizar mentes, tanta desorganização na dinâmica do espaço. Cadê a vergonha na cara, a vontade de pensar, o pote de ouro no fim do arco-íris que estavam aqui? É... Com âncoras e sem velas... Sonhar ainda custa CARO demais... Quantos de nós ousarão pagar o preço? A liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta... Assim terminava o jurássico, sociológico e reflexivo documentário “Ilha das flores”. Liberdade?!? Sonho?!? O que é isso? Cadê a fantasia que estava aqui?
E os poetas malditos podem ter razão ... Amanhã, talvez, tudo faça algum sentido... Ou não...


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A Força do Silêncio XIV


Parem o mundo que eu quero descer?!?!?

Todos alinhados e tão lineares que não dá pra pensar que o universo do quintal alheio não é mesmo cartesiano. Os homens e mulheres empilhados no transporte coletivo poderiam ser facilmente comparados a meias organizadas em uma gaveta ou a palitos de fósforo distribuídos em suas embalagens. O alinhamento, a quadrática, o universo é cartesiano e limita. Há toda uma constância na dinâmica do transporte coletivo e toda uma dinâmica no processo da existência. SER humano tem tomado, cada vez mais, este formato regado a caminhos traçados. Com ingenuidade o homem que se julga SER humano tem sido massacrado pela própria coexistência que identifica o mundo. Houve um tempo em que o fator humano agia sobre o processo de cimentar territórios e ideologias... Mas, de tanto fazer parte dele e alterar a sua estrutura de funcionamento, o próprio homem tornou-se o elemento do conjunto “MUNDO” mais passível de mutação. E o SER humano tenta galgar os degraus da felicidade que ele mesmo convencionou com suas idealizações. O homem criou os mesmos pecados a que se limitou e um d-EU-s à sua imagem e semelhança. Limitado, o ser que criou as próprias algemas está enfileirado e pronto para ir ao moedor... No transporte coletivo em que os homens seguem enfileirados, a mesma dinâmica... Os olhos que se cruzam, mas não se vêem... Os olhos que vêem, mas não desvendam os segredos do outro... Dos pés à cabeça, homens e mulheres são julgados pelos sapatos, roupas, combinações, uniformes... Quanta tolice a filosofia da igualdade... Ninguém quer ser IGUAL a ninguém... As pessoas só precisam ser quem são e ter alguém que lhes diga o quanto são incríveis, mesmo que elas não sejam... Mesmo que nem elas saibam quem são... Mesmo que o elogio seja uma ferramenta de ludibriar... Ah! O sorridente ego inflado dos homens que caminham para o moedor vale a pena observar... Como a natureza do SER humano é variável, influenciável... Calmarias e tempestades são tão facilmente protegidas e as máscaras que se levantam são tão confortáveis... Cada um representando o seu papel na estrutura viva de um mundo quase real... Os mesmos atores quedam à dinâmica de uma história construída, engendrada, lapidada, distorcida pelo meio... O que há de REAL- idade no que somos esconde-se na solidão... O ditado é antigo e tem cheiro de guardado... As palavras não são bonitas... Mas, o sentido é tão real que rasga a pele como aço de navalha... “O que somos realmente está presente naquilo que fazemos quando não há ninguém por perto...” É na solidão que as misérias humanas se libertam, que os sentimentos mais mesquinhos despertam... Em conjunto aprendemos a nos encaixar, nos deixamos moldar... Suplantamos a essência em busca de uma excelência forjada. E não é difícil moldar o homem porque ele não é feito de aço... O homem é uma massa de manobra fácil, quando não faz do pensar a sua vontade maior, a sua prática real... A ingenuidade do homem só não é maior na aceitação, do que nas supostas revoltas e revoluções que tenta fazer... Pobre fantoche! Tão humano que ainda não aprendeu... As revoluções levantadas com espada são podadas com a mesma lâmina cortante com que se aliam... A verdadeira revolução social é silenciosa - diz o sábio. E ele tem razão... O silêncio observa, mede, traça estratégias, vai roendo a força exploradora pelas beiradas... O inimigo não pode esmagar flores com tratores, sem perder a confiança daqueles que admiravam a beleza do jardim... Mas, os seres TELE-guiados do transporte coletivo e outros tantos que transitam em caixas de metal, com rodas, volantes e engrenagens... O que dizer? Os seres do transporte coletivo, tão diferentes e tão iguais entre si, falam demais por não ter nada a dizer, como já dizia o poeta deprimido de uma década de 80 nem tão distante... Os seres do transporte coletivo procuram as provas e os fatos de tantas canções que embalaram juventudes de outras épocas... Eles não querem que estas frases lhes vistam de saudades, mas os façam sentir-se a personagem que inspirou, a poesia, que inspirou a música... Os SER-ex humanos do transporte coletivo falam e não dizem nada, olham e nada vêem, gritam por qualquer motivo tolo, usam palavras repetidas... Eles caminham para outros moedores, outros campos de concentração, outras Bastilhas, mas estão sujeitos ao mesmo fim... Tantos atos pra tão poucas atitudes... Mas eles nem sempre podem escolher o momento de descer... Qual é a próxima parada? Em que ponto você deserta? Qual a sua escolha? Você ainda pode escolher!!! O ônibus é o mundo e você é o passageiro... Quanto vale a sua passagem, o seu passe, o seu bilhete, a sua viagem? Onde você quer chegar? Onde precisa descer para estar no seu lugar feliz? O que é preciso fazer para sair da zona de conforto? Eu grito porque a campainha não funciona: “PAREM O MUNDO!!!” e não é porque eu quero descer... E, sim, porque tem gente que já passou do ponto ou perdeu esse trem... No sentido mais literal possível...


Uma sugestão pertinente : Confortably Numb (Pink Floyd) 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Força do Silêncio XIII


 O Outro é um pouco de Nós

A normalidade nos precede. A normalidade agride o espírito humano. Confundida à monotonia, normalidade pintada na monocromia dos dias é a seta para um alvo desconhecido, ou o alvo de setas desconhecidas. A seta e o alvo no discurso de Nietzsche, na música de Paulinho Moska, ou na troca de ideias das redes sociais, ainda são alegorias atemporais do universo humano. João que amava Maria, que amava José, que não amava ninguém... Em ciclos, somos os animais sentimentais das canções de outrora. Estranhamente vazios, dotados de uma cruel indiferença, falando demais por não ter nadaa dizer... Sem perguntas, indagações, dúvidas, nós somos eternos TRÊS PONTOS NEGROS reticentes. Da porta para dentro, as quatro paredes de um universo solitário, em que telas mágicas mesclam-se a livros, canções, dores, violões, saudades e vazios. Da porta pra fora, as tantas cascas travestem-se em máscaras... São risos soltos, palavras leves, roupas coloridas, mas ainda o mesmo vazio... E de quem é a culpa? A gente cresce, faz de conta que amadurece, mas continua depositando a esperança em quimeras distantes, praticamente intangíveis. E, de vez em quando,a gente se atreve a pôr a mochila nas costas, atravessar o mundo e experimentar o sonho. Mas, vem a vida e puxa o tapete. E a queda, repetida tantas vezes, reabre todas as feridas não cicatrizadas. Toda vez que a ideia de fazer das quedas um passo de dança, salta das páginas de Fernando Sabino, eu me pergunto: será que é só isso? É só pra isso que a gente nasce, vive, morre? Pra cair e levantar, sentir-se vazio, às vezes, chorar, para buscar eternamente a própria identidade, viver inerte? Encontrar grandes amores e perder antes mesmo de saber se eram grandes, ou se eram realmente amores? Como é que a gente identifica o que sente? Como é que a gente sabe que não sente mais? Às vezes, por muitas vezes, sentimos mesmo um desejo galopante de fazer por alguém, o que ninguém nos faz... Às vezes nos esforçamos, nos preocupamos, imploramos, rastejamos por um espaço em que fazer a diferença. Mas, há sempre o OUTRO nesse contexto... O outro que também é um pouco do nosso próprio EGO-ismo... O outro que é um pouco do nosso amor... O outro que é um pouco do nosso vazio... Mesmo na dificuldade da harmonia com o outro, com o meio, com o mundo, o SER humano tenta... Às vezes, para amenizar suas antigas culpas e fazer de conta que os erros passados são corrigíveis... Às vezes, ele tenta, mas falta a ética que prega nas atitudes que toma... E tem outras formas de agir, menos convencionais também... Reagir de tudo ou fugir de tudo... A minha velha fala cai aqui como uma luva: "Coragem de fugir pode ser medo de ficar". Em marcha descompassada, eles somem sem deixar pegadas, por não acreditarem ser merecedores do presente, ou não acreditar em si mesmos... Pause o seu universo... Não dá pra resetar a vida... Pense melhor!!! Nem sempre a facilidade da fuga esconde o caminho certo. Ninguém resolve um problema quando o abandona no baú de achados, perdidos e memórias esquecidas... Há alguém em algum lugar, um ombro e um colo em que se aninhar, braços em que se confortar, ouvidos abertos para te escutar... Alguém em algum lugar há de sentir a fuga, há de esperar a sua volta, há de ter dores a anestesiar... Alguém em algum lugar há de enxergar em você uma parte de si... O reflexo de um espelho a sua frente talvez, retrate este alguém... Fotografias guardadas em baús alternativos, ou traços eternizados na ponta dos dedos que os tocaram...

Sempre há um lar que te espera, não o deixe passar pela vida, sem ter nele descansado seu mundo.

"Aquilo a que você resiste, persiste". (Carl Jung)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A Força do Silêncio XII


 Tarde de escola...

Quando olhei as crianças na tarde chuvosa, elas se pareciam mais com o muito do que um dia fui, com muito do que hoje sou. Os uniformes e tênis surrados, os cadernos amarrotados, os lápis e canetas mordiscadas pareciam-se com a saudade de um tempo em que eu era apenas mais um na multidão. Ah! A arte de esquecer rapidamente as palavras exageradas de alguém, a agressividade embutida nelas... Uma arte que reaprendo diariamente: A de acalmar o espírito antes da agressão... Mas ainda preciso entender porque existe um mundo de seres HUMANOS que vivem para atirar pedras a todos os lados. Eu olho as minhas crianças (nem tão crianças) em seus 15, 16 anos, com seus amores intensos e imediatos... Sorrio com seu mundo de celulares, canetas coloridas e perfumadas... Divirto-me com suas palavras atropeladas e o volume alterado das vozes... Lamento os erros de português e a caligrafia que me impede a compreensão... Vejo em cada um, um universo que se conforma em ser limitado... E, quando eu subo em cadeiras e os transformo em personagens, eu sonho... Sonho apenas em deixar uma semente positiva, qualquer que ela seja. Eu vejo Ana sorrir, releio sua produção textual, eu apenas tento enxergar nela um pouco do que há para além dos muros limitadores da pequena cidade provinciana. Perdido entre papéis mal escritos, livros didáticos cartesianos que aposento e sistemas de avaliação falhos, eu repenso a estrada. Eu projeto para a minha estrada uma História literalmente diferente. Não me interessam os números que avaliam, interessa-me o quanto isso poderá torná-los melhores para a vida e não para o boletim de final de bimestre. Eles sempre querem menos e mais. Quando menores, os olhares paternos esperavam que crescessem em idade, sabedoria e graça, assim como na fatídica história do suposto filho de um deus hoje desacreditado. Mas eles crescem... E crescem para descobrir que em outras épocas o sinônimo de desenvolvimento é diminuir. Diminuir o tamanho dos computadores e aumentar a sua capacidade de aumentar, a sua velocidade de realizar tarefas... Na tarde chuvosa, as vozes agudas e sem direção misturam-se ao chiado da chuva que agride o cimento das calçadas e tem cheiro de terra molhada. Minha mente cala minha voz, minha mãos derramam-se em canetas e páginas envelhecidas... Não há entre as paredes da sala de aula, as goteiras dos dias de chuva intensa, porque a chuva hoje é suave. O frio deixa os rostos juvenis vívidos e os olhos mais brilhantes... Lá fora os pequenos liberam o seu mundo em gritos recreativos; aqui dentro tudo está em paz. Há livros, folhas agredindo o silêncio ao serem movimentadas, a luz desnecessária da lâmpada fluorescente que compete com a claridade que ultrapassa as cortinas e vem de fora. Apesar delas (das cortinas) é possível avistar as nuvens brancas e a torre da igreja. Apesar das crianças e de suas tempestades de gritos, os ouvidos alcançam o barulho dos carros que atravessam o silêncio pela estadual. Não há tempestades dentro de mim, ou talvez elas existam... A alma sorri, o sorriso dos que me cercam e eles são feitos de leveza, de cores, olhares e uniformes e de esperanças travestidas em sonhos. Duas dezenas e três unidades... Mas o que era para ser um louvor ao caos, tornou-se a tarde de paz cujas lágrimas foram derramadas muito antes, como sobremesa ao almoço que não conteve palavras na expectativa de papéis médicos rotineiros e sempre amedrontadores depois da infância.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Força do Silêncio XI


Aprendendo...

Já dizia a sábia mãe que me criou: "vivendo e aprendendo"... É a materna sabedoria que eu só compreendo vivificando o ditado... De curvas e... estradas e... descaminhos a vida se faz e desfaz metade do que somos e refaz as metades que nos perderam pelo caminho... A gente aprende com quem fala demais que o silêncio é precioso... A gente aprende com quem ama demais, a potencializar aquilo que nos faz bem... A gente aprende a cuidar da gente e a esperar aviões mesmo que eles nunca cheguem... E aprende e aprende... E quando pensa que sabe de tudo, vem a vida faceira em círculos, recriando moinhos de vento e nos fazendo sempre "Dom Quixotes" sem gigantes... Há sempre algo escondido no brilho ou na ausência do brilho.. Um segredo ou um mistério no olhar fosco que alguém enxergou... Muito provavelmente a exemplo da parábola da cortina branca do vizinho e da janela suja pela qual alguém o enxergava e o criticava... A gente aprende a não magoar quem gosta, porque já foi magoado por alguém de quem gostou... Aprende que estar perto da rosa é desfrutar de sua beleza, mas também desviar dos espinhos que a protegem... É... A gente aprende que o que nos prende a algum lugar, não é o lugar em si, mas as pessoas que te fazem sentir-se bem lá... Aprende que quando deseja demais uma coisa, enxerga em todas as outras que perfazem a sua vida, motivos que colaboram para tornar a necessidade mais confortável de ser atendida... E quando pensa que não tem mais nada a aprender... A vida e as pessoas provam que não é nada disso... Que ainda é preciso mais, um xícara de chá, uma pausa para o papel, mais leituras e mais paciência... "Paz e paciência" _ disse o Mago... É querido Mago, a gente aprende... Aprende na escola , na vida , na estrada, na esquina, no olhar indiferente, na cor da rosa, no sangue que ela derrama... A gente aprende a ter pressa e paciência ao mesmo tempo... Aprende que para entender os pais é preciso deixar de ser apenas filho para tomar o lugar deles... Com a pedra na estrada: o desvio ou a retirada... Com a tela mágica: a aproximação ou a consentida solidão... Com decepções: a gente aprende a confiar menos, a amar menos; mas, nunca,  a desistir de querer um algo a mais com cara de janelas por invadir e cortinas para aconchegar... Com o tempo a gente escolhe os aconchegos, redesenha os lares, refaz os olhares, relê os amores e decide que, afinal, nada era tão verdadeiro e tão real quanto há um minuto... Com o tempo e as pessoas, a gente aprende que a adolescência pode transformar ares de primavera em tufões destruidores que duram um segundo... Com o tempo e o espaço, a proximidade é grito no poema e uma pausa na respiração... Com a letra da música dá pra perceber, que embora sejamos únicos, tem gente que pensa parecido... Se não somos a ilha que imaginamos, a introspecção é uma escolha... E a gente aprende... A expulsar o que é invasivo, a respeitar o desejo de gritar... Com o olhar e o sorriso da criança próxima ou distante, a gente aprende o quão maternal pode estar, mesmo sem o saber... É... A gente aprende na estrada, como fazer o caminho... Aprende no espaço como encontrar o conforto... Aprende perguntando, o valor de uma resposta... Na carta escrita que nunca foi entregue, na música piegas às três da madrugada... Aprende o que realmente é importante ter por perto, aprende o que realmente é real... Quando tudo parece artificial na vida distante das linhas timelineanas, nas fotos, discos, livros e saudades do que nunca tocamos... A gente aprende quão valiosos são os desenhos da menina, e os cabelos de sua bonecas, e sua "estranha" paixão por vestido pretos... A gente aprende que a mochila de objetos dominicais que acompanham na viagem é um mundo nas costas, é um mundo em outro mundo... A gente aprende que ilhas mágicas só podem mesmo abrigar magos e que cidades-solidão não se chamarão assim por tanto tempo... A gente aprende matemática na ausência, conta o tempo e corre contra ele... A gente corre pra não perder o trem , pra não perder a hora, pra não perder a vida... Lê sígnos, livros, poemas, a vida em rede sociais... A gente escolhe não se render, a gente escolhe nem mesmo lutar... E o vapor é quente como a lembrança de uma noite mal dormida ou de um banho bem tomado... Nos sonhos aprende o quão confortantes certas coisas poderiam ser se fossem reais, se não são... Nas fotografias e suas essências, nos desenhos bem traçados e seus caprichos, nas palavras que descrevem o mundo: o valor do cuidado, do carinho, da presença, da observação... A gente aprende a amar, depois de tudo isso as imperfeições, se é que elas existem... Aprende a amar presenças distantes... Aprende a amar sorrisos e olhares verdadeiros,leves e doces... A gente aprende, às vezes contra o tempo,ás vezes com o tempo... Que o que importa não precisa estar visível ao mundo, mas, sim, fazer-se presente em nosso mundo... 

"Esperar, observar e apaixonar o espírito... três passos para a decolagem..."

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Força do Silêncio X


Eduardo

Olhei para cada rosto
e como se fosse a última vez
senti o amargo gosto
de um impossível talvez...
meus bens maiores,
meus amados bens,
meus momentos melhores...
mas, futuro... Eu sei que vens...
com outros tantos sorrisos
palavras, gestos indecisos,
de tantas formas de um saber,
de tantas formas de querer,
dos ossos que saltam de Eduardo...
da palidez do menino
do madrugar, trabalho árduo
do momento em que o ensino
e perco meu tino
se penso por um vão momento
Onde está a mãe?
o amor, a proteção?
por que tanto lhe falta o pão?
por que tanto lhe falta no momento?
sobra em sonolência o lamento
por que tão pouca ilusão?
os olhos fecham sem querer
vontade de adormecer
na sala de aula,
no ônibus lotado...
ele pouco fala
sorriso dissimulado
o menino pouco escreve
o menino pouco lê
sabe que a vida lhe deve
mas ele nem sabe o quê
quatro irmãos, muitos destinos
mãos calejadas de lenhador
igual a ele tantos meninos
partilham da mesma dor
enquanto escrevo os caroos passam
mensageiros do que não se vê
muitos em vão se calam
poucos tentam resolver
nessa mesma tarde ensolarada
estará Eduardo na mesma escola
com sua aparência cansada
e ele não quer esmola
quer apenas que enxerguem nele
o homem por trás da nota
que traz sempre à flor da pele
o que a aparência denota...

A Força do Silêncio IX

Trégua

 A mão fechada alcança o rosto
Os olhos azuis tem fúria...
O punho, o soco, o sangue
faces da mesma ação...
Os mesmos meninos hoje são homens
mas se consomem em uma raiva pequena
em plena falta de razão
efusão de sentidos bestas que se acumulam
apunhalam, registram indignação...
no coração palpitam os sentidos
contidos, retidos, berrados...
atirados ao meio da rua
em carne crua o disparate
bate no rosto amigo...
comigo carrego a surpresa...
sutileza em nada fazer...
nada há de haver, mas deixe estar...
ei de me encontrar arrependida...
todavia eu já não tenho
eu já não venho e já não quero
naquilo em que me esmero salvar o mundo
imundo covil de seres egoístas humanos
se profano em palavras cada um deles
a reles sensação que me toma é maior...
o rosto vermelho dá conta da ira...
partira um dos dois lados 
apressados os passos, o suor a escorrer do rosto
o desgosto noutra face fez morada
mas a minha estrada era outra
e se eu não pudesse salvá-la
nem a palavra salvaria aqueles mundos
profundos mares de adolescência...
a dependência, a raiva, a explosão...
e enquanto a escola às escuras se fechava
andava por qualquer estrada
indo a qualquer morada
carregando seus 16 anos nas costas
mãos postas, a mochila negra e os livros...
cadernos e infernos particulares
lançados ao abismo da raiva...
paira no ar ainda
uma mal-vinda sensação de preocupação...
coração pergunta qual o desfecho
mexo dentro em mim as sensações
emoções que eu não poderia ter...
como termina a discussão?
o que é feito do menino de olhos azuis?
quem limpa a sua ferida?
acalma a sua vida?
quem lhe fará curativo?
libertará o cativo
prisioneiro de sua ira pequena e triste
que de dedo em riste
ainda apontará para muita gente
e de forma inconsequente
oferecerá a face ao tapa
e a cada etapa aprenderá pela dor
o que não quis aprender por amor...
se foi só mais uma briga de escola
ou mais um sentimental a pedir esmola...
não quero mais discutir
não posso se quer ouvir
meus braços pequenos e tão preocupados
se abrem e tentam salvar o mundo
mas entre perdidos e achados
há um espaço extenso e profundo
entre o que eu quero e o que os meus braços alcançam
entre as coisas em que me esmero e aquelas que hoje me cansam...

sábado, 16 de julho de 2011

A Força do Silêncio VIII

 















A sombra...

Afinal de contas qual é o problema que mais tem tirado o nosso sono hoje em dia? Eu... Uma insone convícta, que rende páginas à noite e raras linhas durante o dia, mal sei porque patavinas este silêncio me apetece. Mas por algum motivo há um efeito esclarecedor que age sobre mim quando a noite chega. Aproxima-se mais uma das tantas meias noites insones em que me sento na frente do computador pra tentar mudar o mundo com minhas escritas ou brincando de deus no jogo de palavras que tanto me fascina. Estava aqui tentanto encontrar um minimalismo qualquer em que me ater, quando várias imagens e suas sombras me chamaram a atenção e eu, perdoem-me a ousadia, surtei com uma ideia mirabolante de costurar sombras e sociedade experimentando uma analogia qualquer que de qualquer pouco terá. Nós que produzimos tantas sombras, somos sombras... Concordas comigo? Ah! Se não concordas isso será ainda mais triste... Vivemos à sombra, caros amigos, da mídia, das necessidades criadas, das supostas situações reais, das pessoas que nos cercam, dos modismos, das marcas, cores, amores, palavras e expressões noveleiras, programas e problemas atuais, e mais um impropério de "ismos" e de "n" circunstâncias e redundâncias cartesianas que nos forçam a ser e a querer e a tentar entender um mundo que funciona no sopro de uma opinião formada midiaticamente pela massificação de valores... De termos repetidos amadoramente em qualquer esquina a jargões que fazem lavagem cerebral e que entram em nossas vidas e em nossas mentes pela repetição tantas vezes condenada pelas propostas modernas e críticas do que seria uma ideia de formação cidadã... É... Eu tinha me esquecido, cidadania só fica na moda em época de eleição, quando alguém precisa dela, enquanto discurso, pra convencer uma meia dúzia antes de comprar votos da outra meia dúzia ... Tudo isto para quê? Para que pareça sincero e real o interesse e o crédito depositado pelo cidadão-eleitor no sujeito que se pré-dispõe a representá-lo. Estamos carecas de saber, até literalmente em alguns casos, que a culpa não é do número reduzido de candidatos que se propõe ao discurso politiqueiro e a vender a sua alma, se necessário, em nome de uma eleição, representação partidária ou cargo que lhe proporcione relativa segurança financeira para o resto literal de seus dias... A culpa é do ser conformado que vende seu voto porque acha que ele não faz diferença. As tantas faltas de consciência de que um mais um é dois, e de que dois mais dois é sempre mais, fazem com que as pessoas se vendam fácil e barato... E sempre que os governos se renovam e os problemas se repentem, as pessoas que enchem a boca pra se dizer cidadãs sem nem parar pra entender o que isso realmente significa, são saudosistas... Elas vivem do passado governamental e  das supostas alegrias, vitórias e circunstâncias favoráveis de outrora... Todo sujeito que passou pela administração, depois de algum tempo, adquire na lembrança do suposto cidadão um valor positivo ... O homem se vai e deixa sua sombra, fruto da construção midiática de uma personagem de nome suficientemente forte para convencer a população de que politicagem é política, e de que é normal tanta bandalheira escorrendo pelos cantos mais escuros da sociedade e transbordando pelas instituições públicas. Eu me sinto uma sombra, um eterno produto de um acúmulo de combinações midiáticas e de circusntâncias cartesianas, milimetricamente planejadas para ditar tendências e transformá-las em tops de consumo. A criação das necessidades e o acalmar de ânimos que torna o povo tão pacífico a ponto de achar que todas as baixarias, jogadas e contravenções que constroem a politicagem, realmente podem ser consideradas a pura e simples política e que é tudo normal, me frustra. É tão fácil ir adiante e esquecer que a coisa toda está errada, já dizia o brilhantismo de Humberto Gessinger... Pois é... Como é possível simplesmente achar que as bandalheiras sempre estiveram ali e, por isso, já fazem parte da história e da postura política brasileira? Como é possível pensar que tudo isso é normal.. Estamos sendo sujeitos de nós mesmos, enxergando o mundo e fazendo qualquer coisa pra mudar o que não se desenrola como deveria? Ou estamos sendo sombras e nos comportando conforme o movimento dos "grandes" oligarcas de terno e gravata que sorriem o tempo todo. como se a sinceridade pudesse ser assim plástica e imutável, e sempre discursam uma defesa do povo que nunca praticam? Nasci exausta da minha incapacidade de calar e da minha necessidade de escrever, mas se não posso me livrar de nenhuma delas e ser feliz... Então vou abrir o verbo mesmo que eu apenas escreva pra não explodir de tanta indignação... Num mundo de sombras, manipulações e saudosismos quem são, então, os protagonistas? Quais são afinal os reais valores humanos? Se é que os podemos chamar assim... Se for pra ser sombra a vida inteira prefiro não ser nada... Se nem eu mesma puder tirar do meu pescoço a corda que me limita o ar, como poderei sobreviver estando ela ali? Cansada de brincar de ser os outros... Cansada de plantar verdades e mudar com elas... Quero as minhas verdades e indignações bem claras e estabelecidas e quero gritá-las em minhas palavras, grifá-las e destacá-las de forma garrafal... Ah... Radicalizar não está com nada... E viver para sempre morno, em cima do muro, à sombra das opiniões alheias, vale de quê? Pode comprar bons objetos e imóveis e automóveis, pode rechear uma gorda conta bancária, mas não compra felicidade, dignidade, realização... Ficar morno não compra identidade, ao contrário, prova a fraqueza do caráter humano de determinadas pessoas que de humanas, sinceramente, pouco têm... É hora de tomar o mundo nas mãos e transformá-lo... Não dá mais pra dizer que o Brasil é o país do futuro, porque isso é discurso de quem fica eternamente adiando a atitude a ser tomada... É hora de tomar seu mundo nas mãos... Não para descansar sobre ele, mas para trabalhar nele...