quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Partes de Mim XVIII


Havia uma estrela...

No canto do mundo... No berço da noite... Na esquina de chuvas intensas, eu encontrei um mundo perdido... Para além das nuvens e para além dos sons.... Da estrada de chão, de qualquer lugar, em um lugar qualquer... A solidão reprimida dobrou a esquina disfarçada de moleque... A solidão tímida que não sabia olhar nos olhos... A solidão era um observador... Na esquina que agora nada mais retrata, o moleque e sua solidão armaram o seu negócio... Sobre os cavaletes do mundo esticaram sua esteira de esperanças e espalharam os seus doces fabricados de sonhos e alegrias retorcidas e palavras modestas e sorrisos dissimulados pelo abismo que se formava... Do céu nublado onde nenhuma nuvem se derretia para deixar entreabrir o sol de outros firmamentos, a cadente possibilidade de lá existir uma estrela errante nunca enxergada... Nada havia além do cinza inconformado das nuvens na tarde da cidade solidão.. O riso no rosto do palhaço era apenas a convenção a que o obrigava o ofício... Havia uma estrela e nenhuma certeza de que ela realmente existisse... Havia uma menina que procurava pela estrela mesmo sem enxergar claramente a sua existência ou a possibilidade qualquer de um remoto sinal de um brilho de estrela, daquele dos céus de brigadeiro das propagandas de sabão em pó e margarina... A estrela estava lá por uma certeza que o peito da criança tinha mesmo sem saber com que propósito ou com que amor se formara... Deixou que a onda a acertasse muito mais que em fatídicos versos legionários... O mês que a estrela contava para aproximar-se do moleque da banca de doces, era uma contagem regressiva para dissipar o medo de andar de pé novamente... O medo era feito de pó, mas a onda levou com o mar toda a poeira e assentou o que sobrou nas areias que o circulavam... A mão estendida da menina sonhadora era um convite à estrela que se escondia para além do alcance de suas amantes... A estrela estava estática, mas tinha direção... A estrela não era presa pela posse da menina porque a liberdade que ela lhe oferecia já transformava a cadente estrela rebelde em prisioneira... Quis o ser iluminado estar entre os dedos delicados da pequenina criatura que de mãos estendidas contemplava o vazio como quem vê a mais bela de todas as paisagens... A chuva se foi, as esquinas deixaram de ser paisagens, as amantes vencidas pelo cansaço passaram a ser observadoras... Na banca de doces o menino cresceu... A mão pequenina permaneceu estendida até que o doce ocupasse o espaço que a estrela supostamente existente nunca ocupou... O doce era feito de sonhos, assim também o coração da menina que esperava uma estrela... Mas não sabia ela que, arteira que só, a pequenina estrela que lá estivera escondida por todo aquele tempo, apenas testava a sua crença e o seu amor para lhe dar em troca da esperança do sentimento dedicado um mundo de sonhos de que se alimentar e porque seguir em frente... Na poesia da estrela, ninguém sabe quão otimista foram suas intenções... Ninguém sabe de que se fez a solidão de tantos... Mas muitos podem perceber que a cidade e seus fantasmas ainda estão lá transmutados em solidão ambulante vendendo sonhos ou tentando comprá-los, esperando poucas estrelas, tendo pouca força para isso...

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A cidade solidão hoje é um vislumbre, amanhã uma estrela, depois, talvez, o próprio e doce ato de sonhar... É a porta que faz amores cadentes parecerem menos eficientes quando nos prostramos a pedir as tantas barbaridades a que já nos acostumamos... A cidade solidão é hoje o porto que abriga a minha estrela... Aquela a qual eu estendo a mão e convido a entrar por minha porta, por minhas janelas lilases, pela paz de uma ilha mágica... Em minha vida... A cidade solidão guarda neste momento a minha estrela e também uma parte de mim que se perde com ela todos os dias...

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